🧬 Uma nova opção terapêutica pode ampliar as perspectivas para pacientes com alopecia areata grave. Dois grandes estudos clínicos de fase 3 publicados no JAMA Dermatology mostraram que o upadacitinibe oral promoveu recuperação significativa dos cabelos em adultos e adolescentes com formas graves da doença. Em um dos grupos tratados, aproximadamente 55% dos participantes alcançaram pelo menos 80% de cobertura do couro cabeludo após 24 semanas, enquanto apenas 1,5% a 3,4% dos pacientes que receberam placebo atingiram esse resultado.
Os dados reforçam uma das principais transformações recentes da dermatologia: o avanço dos inibidores da Janus quinase (JAK) no tratamento de doenças imunomediadas responsáveis pela queda dos cabelos.

🧬 O que é a alopecia areata?
A alopecia areata é uma doença imunomediada caracterizada pela perda não cicatricial de cabelos e pelos. Nessa condição, mecanismos do sistema imunológico passam a atuar de maneira inadequada contra estruturas relacionadas aos folículos pilosos, interrompendo temporariamente o crescimento dos fios.
Consequentemente, podem surgir áreas arredondadas e bem delimitadas de perda de cabelo. Entretanto, a apresentação da doença é bastante variável.
Alguns pacientes apresentam somente uma ou poucas placas no couro cabeludo. Outros podem desenvolver formas muito mais extensas.
Entre as apresentações estão:
- alopecia areata localizada: surgimento de uma ou mais áreas sem cabelos;
- alopecia totalis: perda de praticamente todos os cabelos do couro cabeludo;
- alopecia universalis: perda extensa dos pelos do corpo;
- comprometimento de sobrancelhas e cílios.
Além disso, a evolução da alopecia areata pode ser imprevisível. Alguns pacientes apresentam crescimento espontâneo dos cabelos, enquanto outros convivem com episódios recorrentes ou doença persistente.
Para entender melhor a doença, seus sintomas e as alternativas atualmente utilizadas, consulte também a página da Derma Line sobre Alopecia Areata.
🔬 O que é o upadacitinibe?
O upadacitinibe é um medicamento administrado por via oral pertencente à classe dos inibidores da Janus quinase (JAK), com atividade preferencial sobre a JAK1.
As proteínas JAK fazem parte de vias intracelulares responsáveis pela transmissão de sinais relacionados à resposta imunológica e inflamatória.
Portanto, ao modular determinadas vias de sinalização imunológica, os inibidores de JAK podem interferir em mecanismos envolvidos em diferentes doenças inflamatórias e imunomediadas.
Essa classe de medicamentos já modificou significativamente o tratamento de diversas doenças dermatológicas e sistêmicas.
No caso específico da alopecia areata, a via JAK-STAT está relacionada aos mecanismos imunológicos envolvidos no ataque ao folículo piloso. Por esse motivo, medicamentos capazes de modular essa sinalização passaram a ocupar um espaço importante na pesquisa e no tratamento das formas mais extensas da doença.
🧪 Dois grandes estudos de fase 3 avaliaram o medicamento
Os resultados publicados on-line em 12 de agosto de 2026 no JAMA Dermatology são provenientes de dois ensaios clínicos randomizados de fase 3 do programa UP-AA.
Ao todo, participaram 1.399 pacientes com alopecia areata grave, sendo:
- 1.281 adultos;
- 118 adolescentes.
Os participantes foram distribuídos para receber:
💊 upadacitinibe 15 mg uma vez ao dia;
💊 upadacitinibe 30 mg uma vez ao dia;
ou
🔬 placebo.
Um aspecto relevante é que os pacientes incluídos apresentavam quadros importantes da doença.
No estudo UP-AA1, por exemplo, aproximadamente metade dos participantes apresentava alopecia considerada grave e a outra metade apresentava doença muito grave. A duração média da alopecia desde seu início era superior a 11 anos.
Portanto, não se tratava simplesmente de pacientes com pequenas áreas recentes de queda capilar.
📊 O que significa SALT?
Para compreender os resultados, é importante conhecer o Severity of Alopecia Tool (SALT).
O SALT é uma escala utilizada para medir objetivamente a extensão da perda de cabelos no couro cabeludo.
De forma simplificada:
- SALT 0: ausência de perda de cabelo no couro cabeludo;
- SALT 20: aproximadamente 20% de perda;
- SALT 100: perda completa dos cabelos do couro cabeludo.
Assim, atingir SALT ≤20 significa apresentar 80% ou mais de cobertura capilar no couro cabeludo.
Esse foi o principal desfecho analisado pelos estudos na semana 24.
📈 Quais foram os resultados do upadacitinibe?
Os resultados observados foram estatisticamente significativos nos dois estudos.
UP-AA1
Na semana 24, alcançaram SALT ≤20:
45,2% dos pacientes tratados com upadacitinibe 15 mg;
55,0% dos pacientes tratados com 30 mg;
contra apenas
1,5% dos participantes que receberam placebo.
UP-AA2
No segundo estudo, os resultados foram semelhantes:
44,6% com upadacitinibe 15 mg;
54,3% com upadacitinibe 30 mg;
contra
3,4% no grupo placebo.
Em outras palavras, aproximadamente 45% dos pacientes tratados com 15 mg e 54% a 55% daqueles tratados com 30 mg atingiram pelo menos 80% de cobertura capilar após 24 semanas.
Esse resultado ganha ainda mais relevância quando comparado ao baixo percentual observado entre os participantes que receberam placebo.
🌱 Alguns pacientes apresentaram repilação completa
Outro dado particularmente interessante foi a avaliação do SALT 0.
SALT 0 significa que não havia perda mensurável de cabelos no couro cabeludo no momento da avaliação — ou seja, cobertura capilar completa segundo essa escala clínica.
Na semana 24, no UP-AA1, SALT 0 foi alcançado por:
- 14,1% dos pacientes com 15 mg;
- 20,3% dos pacientes com 30 mg;
- 0% com placebo.
No UP-AA2:
- 13,1% com 15 mg;
- 22,5% com 30 mg;
- 0,7% com placebo.
Portanto, aproximadamente 1 em cada 5 pacientes do grupo de 30 mg apresentou cobertura completa do couro cabeludo na semana 24, dependendo do estudo.
Entretanto, é essencial interpretar esses números corretamente.
Eles representam médias obtidas em populações selecionadas dentro de ensaios clínicos controlados. Isso não significa que todo paciente tratado terá o mesmo resultado, nem permite prever antecipadamente a resposta individual.
📅 E o que aconteceu após 52 semanas?
Os dados disponíveis do programa clínico também apontam que a resposta continuou evoluindo em muitos pacientes.
Na semana 52, aproximadamente 55% a 59% dos pacientes tratados com 15 mg e 63% a 64% daqueles tratados com 30 mg apresentavam SALT ≤20.
A cobertura completa do couro cabeludo (SALT 0) também aumentou.
Dependendo do estudo, aproximadamente:
- 26,6% a 28,5% dos pacientes com 15 mg;
- 35,8% a 37,0% dos pacientes com 30 mg
atingiram SALT 0 na semana 52.
É importante observar, contudo, que esses resultados de 52 semanas são provenientes da extensão dos estudos e devem ser interpretados dentro do desenho específico da pesquisa.
Ainda assim, os dados sugerem que, para determinados pacientes que respondem ao tratamento, a recuperação capilar pode continuar progredindo além das primeiras 24 semanas.
👁️ Sobrancelhas e cílios também apresentaram melhora
A alopecia areata grave não afeta necessariamente apenas os cabelos do couro cabeludo.
Pacientes com formas extensas podem apresentar perda parcial ou completa das sobrancelhas e dos cílios, algo que pode aumentar significativamente o impacto estético, funcional e emocional da doença.
Por isso, os pesquisadores também avaliaram essas regiões.
Os estudos demonstraram melhora significativa de sobrancelhas e cílios entre os pacientes tratados com upadacitinibe.
Esse aspecto é relevante porque mostra que a resposta ao tratamento não ficou limitada ao couro cabeludo.
🧠 Por que os inibidores de JAK estão mudando o tratamento da alopecia areata?
Durante muitos anos, as alternativas terapêuticas para pacientes com alopecia areata extensa eram relativamente limitadas.
Dependendo da extensão, idade, duração da doença e características individuais, diferentes estratégias podem ser utilizadas.
Entretanto, a compreensão dos mecanismos imunológicos da alopecia areata abriu caminho para tratamentos direcionados a vias específicas do sistema imunológico.
É justamente nesse contexto que surgem os inibidores de JAK.
A American Academy of Dermatology (AAD) destaca que esses medicamentos reduzem determinados sinais associados à atividade excessiva do sistema imunológico e podem permitir a recuperação dos cabelos em alguns pacientes com perda extensa.
Atualmente, diferentes inibidores de JAK vêm sendo estudados ou utilizados para alopecia areata, dependendo das aprovações regulatórias de cada país.
Esse desenvolvimento representa uma mudança importante: em vez de atuar apenas de maneira inespecífica sobre a inflamação, tornou-se possível interferir em vias moleculares diretamente relacionadas à fisiopatologia da doença.
🩺 Nem toda queda de cabelo é alopecia areata
Esse ponto merece atenção especial.
A expressão “queda de cabelo” engloba diferentes doenças e alterações capilares, e o tratamento depende diretamente da causa.
Por exemplo, uma pessoa pode apresentar:
- alopecia areata;
- alopecia androgenética;
- eflúvio telógeno;
- alopecias cicatriciais;
- alterações nutricionais;
- doenças do couro cabeludo;
- alterações hormonais;
- queda relacionada a determinados medicamentos;
- associação entre mais de uma condição.
O eflúvio telógeno, por exemplo, geralmente provoca queda mais difusa e pode ocorrer após doenças, alterações nutricionais, estresse fisiológico ou outros fatores desencadeantes.
Saiba mais em Eflúvio telógeno: entenda as causas da queda de cabelo e como tratar.
Além disso, quem percebe redução progressiva do volume dos cabelos pode ter uma condição completamente diferente da alopecia areata. Veja também Cabelo ralo: entenda a diferença entre queda, quebra e afinamento.
Portanto, não é adequado escolher um tratamento apenas pelo sintoma “queda de cabelo”.
Primeiro é necessário estabelecer o diagnóstico.
🔎 Como é feito o diagnóstico da alopecia areata?
O diagnóstico começa pela avaliação dermatológica.
O médico analisa, entre outros fatores:
🔹 padrão da queda;
🔹 velocidade de aparecimento das áreas sem cabelo;
🔹 extensão das lesões;
🔹 comprometimento de sobrancelhas e cílios;
🔹 alterações nas unhas;
🔹 histórico pessoal e familiar;
🔹 presença de outras doenças;
🔹 medicamentos utilizados;
🔹 episódios anteriores de queda capilar.
Além do exame clínico, a tricoscopia pode auxiliar significativamente na avaliação dos cabelos e do couro cabeludo.
Trata-se de um exame não invasivo que permite visualizar estruturas do couro cabeludo e dos fios com ampliação, auxiliando na diferenciação entre diversos tipos de alopecia.
Em determinadas situações, exames laboratoriais ou outros procedimentos diagnósticos também podem ser necessários.
⚠️ Upadacitinibe exige avaliação médica criteriosa
Embora os resultados sejam promissores, o upadacitinibe não é um medicamento para automedicação nem um tratamento cosmético para qualquer tipo de queda de cabelo.
Trata-se de um medicamento imunomodulador sistêmico.
Consequentemente, sua indicação exige avaliação individual de benefícios e riscos, histórico clínico, presença de outras doenças, uso concomitante de medicamentos e acompanhamento médico.
Os inibidores de JAK possuem advertências e contraindicações que precisam ser consideradas.
Entre os aspectos avaliados antes e durante terapias dessa classe podem estar, conforme o medicamento e as características individuais:
- risco de infecções;
- tuberculose e outras infecções relevantes;
- alterações hematológicas;
- alterações hepáticas;
- eventos tromboembólicos;
- fatores de risco cardiovascular;
- histórico ou risco de determinadas neoplasias;
- vacinação;
- gestação;
- interações medicamentosas.
Por isso, a decisão terapêutica deve ser individualizada.
Resultados positivos em ensaios clínicos não significam que o medicamento seja indicado ou seguro para todas as pessoas com alopecia areata.
🌎 Upadacitinibe já está aprovado para alopecia areata?
A situação regulatória precisa ser analisada país por país.
🇪🇺 União Europeia
Em 29 de julho de 2026, a Comissão Europeia aprovou o upadacitinibe para o tratamento da alopecia areata grave em adultos e adolescentes com 12 anos ou mais.
A aprovação foi fundamentada no programa clínico de fase 3 UP-AA.
🇺🇸 Estados Unidos
Em abril de 2026, a fabricante anunciou a submissão ao Food and Drug Administration (FDA) de um pedido para ampliar a indicação do upadacitinibe para adultos e adolescentes com alopecia areata grave.
🇧🇷 Brasil
No Brasil, é necessário consultar especificamente a indicação aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a bula vigente do medicamento.
Até a elaboração deste conteúdo, em agosto de 2026, não identificamos em fonte regulatória oficial consultada confirmação da aprovação brasileira dessa indicação específica para alopecia areata.
Portanto, a publicação de resultados científicos internacionais ou mesmo a aprovação por uma autoridade regulatória estrangeira não significa automaticamente que a mesma indicação esteja aprovada no Brasil.
🧬 O que esses resultados representam para a dermatologia?
Os estudos UP-AA são relevantes porque envolveram uma população numerosa, incluíram adultos e adolescentes e utilizaram ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo.
Além disso, os resultados foram consistentes entre os dois estudos independentes.
Isso fortalece a evidência de eficácia do upadacitinibe na alopecia areata grave e acrescenta mais uma possibilidade ao cenário terapêutico internacional dos inibidores de JAK.
Entretanto, a pesquisa não encerra todas as questões.
Ainda são importantes dados de acompanhamento prolongado sobre:
- manutenção da resposta;
- necessidade de tratamento contínuo;
- recorrência após interrupção;
- segurança em longo prazo;
- seleção dos pacientes com maior probabilidade de benefício;
- comparação direta entre diferentes tratamentos;
- impacto sobre qualidade de vida;
- custo e acesso ao tratamento.
Portanto, os resultados devem ser vistos como um avanço científico relevante, mas sempre dentro do contexto da medicina baseada em evidências e da avaliação individual do paciente.
💇 Percebeu falhas ou queda intensa dos cabelos?
O surgimento de placas sem cabelos, queda súbita, redução importante da densidade capilar ou perda de sobrancelhas e cílios merece avaliação dermatológica.
Quanto mais precisamente for identificada a causa da queda, mais adequado poderá ser o planejamento terapêutico.
Além disso, diferentes doenças capilares podem coexistir. Por isso, observar apenas a quantidade de fios que caem durante o banho nem sempre é suficiente para chegar ao diagnóstico.
Na Clínica Derma Line, a avaliação dermatológica dos cabelos e do couro cabeludo pode incluir exame clínico, investigação do histórico do paciente e exames complementares quando indicados.
O objetivo é diferenciar as possíveis causas da queda e estabelecer uma estratégia individualizada de acompanhamento e tratamento.
📞 Central de Agendamento Derma Line: (11) 4240-7222
Perguntas frequentes sobre upadacitinibe e alopecia areata
1. O upadacitinibe faz o cabelo crescer novamente?
Nos estudos de fase 3, uma parcela significativa dos pacientes apresentou recuperação dos cabelos. Entretanto, a resposta varia individualmente e não há garantia de repilação para todos os pacientes.
2. Quanto tempo demorou para aparecer resultado?
O principal desfecho dos estudos foi avaliado na semana 24, aproximadamente seis meses após o início do tratamento. Os dados de extensão indicaram aumento das taxas de resposta até a semana 52 em parte dos pacientes.
3. O que significa SALT ≤20?
Significa que o paciente apresenta 20% ou menos de perda dos cabelos do couro cabeludo, correspondendo a pelo menos 80% de cobertura capilar.
4. Houve pacientes que recuperaram todos os cabelos do couro cabeludo?
Sim. Nos estudos, alguns pacientes atingiram SALT 0, correspondente à cobertura completa do couro cabeludo pela avaliação SALT.
5. Sobrancelhas e cílios também podem responder?
Os ensaios clínicos mostraram melhora de sobrancelhas e cílios em pacientes tratados.
6. O upadacitinibe serve para qualquer queda de cabelo?
Não. Queda de cabelo possui diversas causas. Os estudos abordados neste artigo avaliaram especificamente pacientes com alopecia areata grave.
7. O medicamento pode ser usado sem acompanhamento médico?
Não. O upadacitinibe é um medicamento sistêmico imunomodulador que exige prescrição, avaliação de riscos, contraindicações e acompanhamento médico.
8. O upadacitinibe já está aprovado para alopecia areata?
Na União Europeia, a indicação para alopecia areata grave em adultos e adolescentes a partir de 12 anos foi aprovada em julho de 2026. A situação regulatória varia entre países e deve ser verificada junto à autoridade sanitária local.
9. Como saber se minha queda é alopecia areata?
O diagnóstico deve ser realizado pelo dermatologista. A aparência das áreas de queda, o exame do couro cabeludo, a tricoscopia e, quando necessários, exames complementares ajudam a estabelecer o diagnóstico.
10. Qual é o melhor tratamento para alopecia areata?
Não existe uma resposta única. Extensão da doença, idade, duração do quadro, tratamentos anteriores, doenças associadas e características individuais influenciam a decisão. O tratamento deve ser definido pelo dermatologista.
📚 Fontes e referências
JAMA Dermatology — estudo original:
Mostaghimi A. et al. Upadacitinib for Severe Alopecia Areata in Adults and Adolescents: Two Phase 3 UP-AA Randomized Clinical Trials
European Medicines Agency (EMA):
Rinvoq — informações regulatórias e indicações terapêuticas
ClinicalTrials.gov:
UP-AA — NCT06012240
American Academy of Dermatology:
Alopecia areata — diagnóstico e tratamento
Aviso: Este conteúdo possui finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não substitui consulta, diagnóstico ou prescrição médica. Medicamentos sujeitos a prescrição devem ser utilizados exclusivamente sob orientação profissional, considerando as indicações oficialmente aprovadas no Brasil e as características clínicas de cada paciente.






